A Revolução do Debate sobre Adultização nas Escolas
No último dia 6 de agosto, o influenciador digital Felca trouxe à tona uma questão sensível nas redes sociais: a “adultização” de crianças e adolescentes. Seu vídeo denunciando essa temática já alcançou impressionantes 50 milhões de visualizações, gerando uma discussão urgente e necessária sobre a exposição precoce dos jovens em plataformas digitais. O impacto dessa discussão foi tão significativo que já chegou às salas de aula, como evidenciado na escola estadual Luiz Antônio Fragoso, localizada na zona leste de São Paulo.
O professor Denis Cléber Gomes, que leciona diversas disciplinas, incluindo sociologia e geografia, aproveitou esta onda para enriquecer suas aulas. Juntamente com Rute Cipriano, professora de língua portuguesa, Denis conduziu uma série de atividades de debate em sua turma de 1º ano do ensino médio, levando os alunos a refletirem sobre as implicações da adultização.
A abordagem inicial focava no trabalho infantil. No entanto, Denis, atento ao que acontecia fora das portas da escola, decidiu adaptar o conteúdo, explorando a adultização. Juntos, ele e Rute organizaram um amplo debate, permitindo que os alunos aprofundassem suas opiniões e conhecimentos sobre o assunto. “Construímos uma base de entendimento, pois muitos alunos não conheciam a terminologia. Discutimos temas como a sensualização nas redes sociais e as responsabilidades impostas a crianças”, conta Denis.
Durante uma aula observada pela reportagem, a dinâmica era envolvente. O professor utilizava técnicas interativas, como escolher colegas para contra-argumentar, e fazia referências a artistas conhecidos para manter o interesse dos alunos. “Através de piadas e dinâmicas, conseguimos tirar os alunos da apatia habitual do primeiro horário”, destaca.
Os estudantes, por sua vez, se mostraram engajados. Trouxeram à tona questões relevantes do cotidiano, como os efeitos de filtros virtuais, padrões de beleza irreais e problemas relacionados à saúde mental, como a ansiedade e transtornos alimentares. “É gratificante ver como eles desenvolveram repertório e senso crítico para se posicionar sobre temas relevantes”, observa Denis.
Contudo, o educador enfrenta um desafio crítico: a adultização não ocorre apenas nas redes sociais, mas se manifesta na vida real. Um de seus alunos prioritários falta frequentemente às aulas para gravar conteúdos para seu canal de vídeos, que já conta com 20 mil seguidores. “Quando os jovens se tornam famosos, eles acreditam que não precisam aprender determinadas matérias. Mas, quando essa fase passa, o que será deles?”, questiona Denis, sinalizando uma preocupação com o futuro de seus alunos.
Transformação na Carreira: Do Corporativo à Educação
Com uma trajetória profissional diferenciada, Denis decidiu deixar uma carreira de 22 anos em logística para se tornar professor. Incentivado por sua esposa, também docente, Denis se formou em história e passou a lecionar. “Percebi que meu coração pertencia à educação. Mesmo em logística, eu gostava de desenvolver treinamentos”, reflete.
Apesar da clara paixão pela docência, ele enfrenta a dura realidade da profissão no Brasil. A falta de respeito e a precarização, manifestada pela condição de professor temporário, são algumas de suas mais profundas queixas. “É a uberização da educação”, critica. O educador se depara com dificuldades em manter a atenção dos alunos, que muitas vezes mal conseguem focar por mais de dez minutos.
Para contornar esses obstáculos, Denis recorre a metodologias ativas, que desafiam o tradicional modelo educacional. “Usamos discussões em formato de ‘aquário’ e até piadas para engajar os alunos”, afirma. Ele também integra novas tecnologias, utilizando aplicativos para transformar redações em músicas que tocam quando as aulas começam ou terminam.
Estratégias para Combater a Adultização nas Escolas
Especialistas defendem que as escolas desempenham um papel crucial no combate à adultização nas redes sociais. Ana Claudia Leite, do Instituto Alana, acredita na importância de criar um ambiente que valorize a infância e o brincar livre. “É essencial discutir os riscos e oportunidades trazidos pelo ambiente digital em aulas de sociologia, filosofia e português”, destaca.
Cristina Cordeiro, pedagoga, ressalta que muitos pais carecem de informações sobre os processos de desenvolvimento infantil. A escola pode ser um espaço propício para educar sobre o uso consciente das redes sociais e as consequências da exposição precoce.
Além disso, deve-se observar de perto o comportamento dos alunos. Sinais como desinteresse, preocupação excessiva com a aparência e comportamentos inadequados são alertas para intervenções. “A escola deve observar com sensibilidade, evitando censuras, mas promovendo uma escuta ativa e respeitosa”, finaliza Leite.
Conclusão
A questão da adultização nas redes sociais e sua transposição para o ambiente escolar é mais do que uma preocupação pontual: é uma urgência que exige ação. Com educadores como Denis Gomes à frente do debate, a formação de jovens críticos e conscientes pode ser um caminho promissor para enfrentar os desafios impostos pela sociedade contemporânea.
Imagem Redação



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