Quatro Décadas Após o Boicote à África do Sul, Ativistas Brasileiros Clamam por Medidas Semelhantes Contra Israel
Quatro décadas se passaram desde que o presidente José Sarney deu um passo ousado ao estabelecer um boicote decisivo contra a África do Sul, que, na metade dos anos 1980, enfrentava um regime de apartheid implacável. Hoje, um novo chamado por justiça ressoa no Brasil, desta vez direcionado a Israel, enquanto ativistas buscam reviver a história e a luta pela igualdade.
Neste sábado, 9 de agosto, uma data que se tornou emblemática para a luta contra a segregação racial, a Frente Palestina convocou um ato vibrante em frente ao Ministério das Relações Exteriores em São Paulo. Os manifestantes exigem um boicote energético ao Estado hebreu, sob a sombra do aumento das exportações de petróleo para Israel em meio ao conflito na Faixa de Gaza.
Dados da ANP revelam que o Brasil exportou quase 3 milhões de barris para Israel em 2024. Embora esse número fique abaixo dos quase 12 milhões vendidos em 2022, o crescimento de mais de 51% em relação ao ano anterior é alarmante, especialmente em contraste com o aumento de apenas 9,5% nas exportações gerais.
Um relatório recente da ONG Oil Change International destaca que o Brasil, ao lado da Nigéria, se tornou um dos principais fornecedores de petróleo a Israel, contribuindo com 9% do suprimento de energia desde o início do conflito. Um alerta que ecoa entre os ativistas e cidadãos preocupados com os desdobramentos humanitários da situação.
“A realidade que vemos diariamente é angustiante, e é devastador saber que a riqueza do nosso país está alimentando essa tragédia”, lamenta Leandro Lanfredi, diretor da Federação Nacional dos Petroleiros. Seu descontentamento se reflete em um apelo por um embargo energético que, por enquanto, parece uma promessa distante.
Em maio, a Federação entregou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, solicitando medidas concretas contra Israel. Para Lanfredi, essa escolha comercial tem consequências severas. “Se tratamos de ESG, é imperativo que verifiquemos se nossas exportações estão contribuindo para situações de genocídio”, afirmou.
Em resposta, a Petrobras declarou que não realiza vendas diretas a refinarias israelenses desde 2023, mas admitiu que continua buscando as melhores oportunidades de mercado. A estatal responde por um terço das exportações brasileiras de petróleo, uma influência significativa no cenário energético.
Chico Braga, historiador e coordenador do ato, expressa suas preocupações acerca da postura governamental. Embora reconheça as declarações de Lula criticando Israel, Braga questiona a falta de ações efetivas. “Falta um compromisso além das palavras”, afirma, ressaltando a urgência do momento.
Ativistas frequentemente traçam paralelos entre o apartheid sul-africano e a situação atual dos palestinos, que enfrentam ocupação na Cisjordânia. Em fevereiro passado, o governo da África do Sul contundentemente afirmou que o regime israelense aplica um apartheid que pode ser ainda mais severo que o enfrentado em seu próprio passado.
A embaixada de Israel no Brasil não se pronunciou sobre os recentes apelos por ação.
O decreto de Sarney, implementado há 40 anos, foi fruto de uma combinação de resistência interna e apoio internacional à causa. A segregação racial na África do Sul era uma realidade brutal, com a população negra sendo forçada a viver em áreas restritas, controladas de modo rígido.
Danilo Marcondes, doutor em Relações Internacionais, comenta sobre o engodo da narrativa do apartheid sul-africano, que não foi aceita pela comunidade internacional devido ao seu caráter grotesco e opressivo.
Com o apoio da sociedade civil e a resistência interna, as sanções contra a África do Sul foram se consolidando, culminando no seu isolamento global. Empresas e entidades culturais se distanciaram, e o clima internacional favoreceu a pressão contra o regime.
Após a Guerra Fria, a questão do apartheid ganhou novo fôlego na ONU, resultando em sanções obrigatórias e pedidos voluntários de embargos. Nesse contexto histórico, o Brasil se posicionou, em 1985, decretando um boicote abrangente.
O isolamento e as sanções internacionais foram determinantes na queda do apartheid, que só começou a ser desmantelado em 1990, culminando nas primeiras eleições multirraciais da África do Sul em 1994, quase uma década após o boicote brasileiro, celebrando a vitória da igualdade e da justiça.
Imagem Redação



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