Movimento Empresarial pela Saúde: Um Caminho Necessário para Melhorar o Acesso à Saúde no Brasil
No Brasil, a permanência ativa no mercado de trabalho é a principal via para garantir um convênio médico. Indústrias e empresas são responsáveis por cerca de 70% dos 53 milhões de beneficiários de planos de saúde, que são majoritariamente coletivos e empresariais. Reconhecendo essa realidade, o Serviço Social da Indústria (Sesi) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançaram o Movimento Empresarial pela Saúde (MES). Esta iniciativa visa reunir as demandas e propostas do setor para aprimorar tanto o Sistema Único de Saúde (SUS) quanto a saúde suplementar no país.
O objetivo central do MES é promover um diálogo robusto, que contribua para a redução de custos e a melhoria da assistência oferecida aos colaboradores. Em um encontro recente, representantes do MES se reuniram com o ministro Alexandre Padilha, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), parlamentares e agentes da indústria de saúde para discutir ações concretas.
Os temas centrais traçados pelo MES para os próximos anos incluem inteligência de dados, saúde mental e gestão dos custos relacionados aos planos de saúde. Grupos de trabalho estão sendo formados para analisar esses eixos específicos, com o intuito de viabilizar soluções práticas e eficazes.
“Nosso movimento visa aprimorar a saúde em várias frentes: acesso, qualidade, eficiência e sustentabilidade”, explica Emmanuel Lacerda, superintendente de Saúde e Segurança no Sesi. Ele ressalta que, embora o foco esteja em planos de saúde, também há uma necessidade premente de melhorar os serviços de saúde pública, já que metade dos trabalhadores da indústria depende diretamente do SUS.
O Sesi está empenhado em fortalecer o SUS através de ações como programas de vacinação e cuidados digitais, facilitando assim o diálogo entre o MES e o Ministro da Saúde. Esse alinhamento com as prioridades da indústria é essencial para promover uma colaboração frutífera, embora muitas pautas ainda debatam questões da saúde suplementar.
Recentemente, algumas operadoras de planos de saúde começaram a se posicionar de maneira mais ativa. “Elas percebem que o mercado de saúde suplementar é profundamente conectado ao mercado de trabalho. No entanto, ainda falta transparência nas questões de reajustes”, aponta Lacerda. A Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) foi contatada para comentar sobre o tema, mas não se manifestou até o fechamento desta matéria.
Demandas da Indústria em Foco
Historicamente, as empresas têm sido instadas a assumir um papel mais ativo na saúde de seus funcionários. Embora grandes corporações tenham avançado na criação de ambulatórios e gestão da saúde, o desafio permanece. Elas têm conseguido negociar melhores condições com operadoras, o que reflete uma necessidade crescente de adequação à nova realidade do setor.
Mudanças regulatórias propostas pela ANS, que visam maior transparência, estão sendo bem recebidas pelas empresas. A nova política de preços e reajustes, cuja consulta pública se encerra em 19 de outubro, busca aumentar a quantidade de contratos no “pool de risco” e definir claramente os aspectos contratuais.
“Lidar com os custos da saúde suplementar exige alternativas e parcerias entre todos os envolvidos. Estamos desenvolvendo estudos para identificar soluções inovadoras que possam garantir a sustentabilidade dos benefícios nas empresas”, comenta Lacerda.
Embora a nova política de reajustes represente um avanço, ele alerta que ainda é necessário um maior letramento das empresas sobre conceitos como sinistralidade e gestão eficaz dos planos. O setor também espera que a ampliação do número de vidas cobertas de 29 para 400 traga benefícios, permitindo que os riscos sejam compartilhados, especialmente em pequenas empresas.
Os desafios incluem a implementação de autogestões por segmento e o financiamento de serviços de saúde mais robustos. Apesar da crescente demanda por estruturas de saúde mais abrangentes, Lacerda observa que há dificuldades em influenciar coletivamente a gestão da saúde dentro das organizações.
O Caminho para a Transição
Luiz Feitoza, especialista em gestão de saúde, enfatiza a importância de contratos mais amplos para reduzir a vulnerabilidade a eventos de saúde inesperados. Ele argumenta que as empresas devem integrar a gestão de saúde em sua cultura organizacional, alinhando-a aos seus valores fundamentais, para garantir investimentos continuados nesse campo.
“A prevenção deve ser uma prioridade, uma vez que representa menos de 1% da receita do setor de saúde”, conclui Feitoza. Além disso, ressalta a necessidade de educar os funcionários sobre os limites e condições de seus planos de saúde, especialmente em um cenário onde a coparticipação se torna mais comum.
Com a atualização da NR-1, que a partir de maio de 2026 exigirá que empresas avaliem riscos psicossociais, o foco na saúde e bem-estar dos funcionários se torna ainda mais crucial. Assim, palavras-chave como prevenção, comunicação e educação devem guiar as práticas empresariais.
A Evolução no Atendimento das Corretoras
As corretoras estão se adaptando às demandas do mercado, como exemplificado pela Pipo Saúde, que atende 225 mil vidas em mais de 200 empresas. A healthtech identificou uma oportunidade de oferecer serviços que melhoram o cuidado e reduzem custos, impactando a sinistralidade.
Thiago Torres, cofundador da Pipo, destaca que as empresas estão percebendo que simplesmente oferecer planos de saúde não é mais suficiente. A gestão ativa da saúde dos colaboradores se torna necessária para controlar custos a longo prazo.
As indústrias têm buscado soluções inovadoras e, em alguns casos, feito downgrade de seus planos para ajustar os custos. Torres observa que muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para identificar quais problemas de saúde precisam ser resolvidos devido à falta de recursos e equipes dedicadas.
A judicialização da saúde também gera novos desafios no setor, especialmente em contratos maiores. Por isso, as corretoras precisam se reinventar e fornecer propostas de valor que ajudem as empresas a gerir seus investimentos em saúde de forma mais eficaz.
O cenário é desafiador, mas as iniciativas em andamento são promissoras. Com a adesão de diferentes segmentos da indústria e uma maior conscientização sobre a importância de uma saúde melhor, o Brasil pode avançar significativamente nesse campo tão crucial.
Imagem Redação



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