Surpreendentemente, mesmo com a proibição de castigos físicos como palmadas e beliscões, 29% dos cuidadores de crianças até 6 anos admitem utilizar essas táticas de disciplina. Na verdade, 13% deles afirmam que fazem isso com frequência.
Essa alarmante revelação faz parte do estudo Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida, que foi apresentado nesta segunda-feira (1º) pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Um verdadeiro chamado à ação na proteção das nossas crianças!
O levantamento revela que 17% dos cuidadores veem essas práticas como eficazes. Surpreendente, não? Isso significa que 12% deles ainda utilizam métodos que são ineficazes e prejudiciais para educar.
O estudo, realizado em conjunto com o Instituto Datafolha, entrevistou 2.206 pessoas em todo o Brasil, das quais 822 são cuidadores de crianças pequenas. A pesquisa coincide com o Agosto Verde, um mês dedicado à conscientização sobre a importância da primeira infância.
Uma legislação forte, mas pouco respeitada!
Há mais de dez anos, a Lei Menino Bernardo, popularmente conhecida como Lei da Palmada, proíbe castigos físicos a crianças e adolescentes no Brasil, determinando que infratores possam ser advertidos e encaminhados para programas educativos.
A lei foi criada em memória de Bernardo Boldrini, de apenas 11 anos, que sofreu abusos e foi tragicamente morto por sua madrasta e pai em Três Passos (RS). Uma triste recordação que ainda ecoa na sociedade.
Mariana Luz, diretora-executiva da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, expressa sua tristeza com os dados revelados e destaca um padrão cultural que não traz resultados positivos na disciplina.
“Crescemos ouvindo que ‘quem apanhou sobreviveu’. É como se ignorássemos que a verdadeira educação não deve envolver dor”, lamenta Mariana em entrevista.
“Esses castigos não ajudam, são ineficazes”, enfatiza a diretora.
Um impacto profundo!
A Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, uma organização da sociedade civil, salienta que nenhum tipo de violência contra crianças é aceitável e menciona as consequências, que podem incluir desde agressividade e ansiedade até depressão e marcas físicas. Além disso, o estudo revelou que 14% dos cuidadores também gritam e brigam com crianças.
Ainda assim, os métodos de disciplina mais recorrentes foram: dialogar e explicar o erro (96%) e acalmar a criança (93%).
Entre aqueles que confessam usar métodos agressivos, 40% pensam que isso gera “maior respeito pela autoridade”. É preocupante!
Um terço (33%) admite que isso provoca comportamentos agressivos, enquanto 21% reconhece que leva a problemas como baixa autoestima e falta de confiança.
“A violência e as agressões não apenas ferem, mas travam o desenvolvimento saudável das crianças”, enfatiza Mariana Luz.
Ela também nota que muitos na sociedade ainda acreditam que não devem intervir na educação de crianças alheias.
“Se alguém batesse em um cachorro em público, haveria reações. Mas uma criança frequentemente é alvo de agressões, e poucos se manifestam”, critica.
Às raízes da primeira infância!
Mariana Luz destaca que 84% dos entrevistados não entendem que a primeira infância é a fase crucial para o desenvolvimento humano. Somente 2% conseguiam identificar corretamente quando essa fase ocorre.
No Brasil, a primeira infância é definida como os primeiros 6 anos de vida. Embora outros países adotem essa classificação, pode haver variações.
“Os primeiros seis anos são fundamentais para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças”, ressalta Luz.
Ela explica que o cérebro de uma criança nessa faixa etária realiza incríveis 1 milhão de sinapses por segundo, estabelecendo 90% das conexões cerebrais que moldarão seu futuro.
“Estudos demonstram repetidamente que as bases do desenvolvimento se formam nos primeiros seis anos de vida”, afirma a diretora.
Contrariando essa evidência científica, a pesquisa aponta que 41% acreditam que o crescimento mais intenso ocorre na vida adulta, enquanto 25% pensam que deve acontecer entre os 12 e 17 anos.
Mariana acredita que é fundamental promover a conscientização sobre a importância desse período vital para o desenvolvimento humano.
“No passado, a terceira idade também não era compreendida. Precisamos evoluir nosso entendimento sobre a infância”, ressalta.
Ela menciona os estudos do economista James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel, que ressaltam o alto retorno de investimento na primeira infância.
“Heckman assegura que para cada dólar investido, o retorno pode ser de sete vezes esse valor. Investir na primeira infância traz benefícios sociais, educacionais e até econômicos”, conclui.
Criança livre é criança feliz!
A pesquisa também investigou quais práticas os entrevistados consideram fundamentais para o desenvolvimento infantil. O respeito pelos mais velhos foi a mais mencionada (96%)! Isso levanta preocupações sobre a valorização da educação infantil e da importância do brincar.
“O brincar é o eixo central da educação infantil, não se pode apenas impor tarefas a crianças pequenas. A aprendizagem deve ser lúdica”, defende a diretora-executiva.
O desafio das telas!
A pesquisa revelou que crianças na primeira infância passam, em média, duas horas diárias em frente a telas, com 40% delas dedicando de duas a três horas a isso.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que menores de 2 anos devem evitar completamente o contato com outros dispositivos, enquanto os entre 2 e 5 anos devem limitar o tempo a uma hora por dia, sempre sob supervisão.
Mariana reconhece que a ausência de suporte pode levar os pais a recorrerem a telas para entreter as crianças, mas sugere incluí-las nas tarefas diárias, como ajudar nas atividades de casa.
Ela também enfatiza que é responsabilidade do Estado garantir creches, uma demanda que deve ser cobrada pela sociedade.
“A proteção e educação destas crianças são uma responsabilidade conjunta: da família, da sociedade e do Estado”, afirma Mariana.
Em 2022, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que é dever do Estado garantir vagas em creches e pré-escolas para crianças até 5 anos, um passo importante para assegurar o futuro das nossas crianças.
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