### Crise Câmbial: Incertezas Aumentam com Ameaça de Tarifa de Trump
O agravamento da crise política e comercial entre o Brasil e os Estados Unidos gerou apreensão em torno da taxa de câmbio. A data limite, 1º de agosto, marca o momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, poderá implementar um aumento de 50% nas tarifas sobre as exportações brasileiras.
Na véspera desse anúncio crucial, o dólar foi cotado a R$ 5,44, mas a situação mudou rapidamente. Após uma breve alta para R$ 5,589, a moeda recuou para R$ 5,55, apesar da ausência de uma retaliação imediata por parte do Brasil.
A situação tornou-se mais tensa após a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que decretou que o ex-presidente Jair Bolsonaro deve utilizar tornozeleira eletrônica. Isso impactou diretamente o câmbio, com a cotação do dólar subindo 0,75%, encerrando o dia a R$ 5,58, enquanto alcançava quase R$ 5,60 durante o pregão.
Diante dessa incerteza, o governo brasileiro e o Banco Central intensificaram suas preocupações sobre o impacto no câmbio a curto prazo. O presidente Lula estabeleceu um comitê liderado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin para discutir ações junto aos empresários, visando evitar a sobretaxa, embora ainda não haja sinais de diálogo efetivo com o governo dos EUA.
Uma fonte anônima do governo alertou que, se Trump confirmar a sobretaxa, a cotação do dólar pode “aumentar ainda mais.” Segundo a fonte, uma alta de R$ 0,20 no câmbio já provoca consideráveis estragos, eliminando, na prática, meses de valorização do real em relação ao dólar.
Essa dinâmica se deve à prática de carry trade, onde investidores pegam empréstimos em moeda com juros baixos para investir em ativos que ofereçam retornos mais elevados. A iminente sobretaxa de Trump pode neutralizar os efeitos positivos da valorização do real, provocada pela diferença nas taxas de juros entre o Brasil e os Estados Unidos.
Enquanto isso, especialistas avaliam que a confirmação da sobretaxa provavelmente resultará em uma alta rápida do dólar em torno de 1º de agosto. Porém, essa volatilidade deverá ser de curta duração, com a expectativa de estabilização em níveis próximos ao que prepondera atualmente.
Os economistas também observam que a desvalorização do dólar nos EUA neste ano tem favorecido o Brasil, refletindo uma apreciada no câmbio que foi observada no último trimestre. O diferencial de juros oferece atratividade para investimentos, embora os custos derivados da volatilidade atual estejam pesando contra posições em derivativos.
Esse cenário contrasta com 2024, quando muitos investidores apostavam na desvalorização do real em relação ao dólar devido a incertezas em torno de decisões do Fed e do processo eleitoral norte-americano.
A pauta exportadora do Brasil, predominantemente baseada em commodities, sugere que não se deve esperar uma alta acentuada do dólar, mesmo diante dessas tensões. Além disso, a Bolsa brasileira continua com valores acessíveis, atraindo investidores que aguardam um horizonte mais claro.
Uma análise conduzida por Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central, indica que o efeito econômico da sobretaxa sobre o PIB brasileiro será limitado. Como as exportações para os EUA representam menos de 2% do PIB, a redução esperada será modesta, entre 0,3% a 0,4%.
Kanczuk destaca ainda que o clima político pode influenciar mais as taxas do que os efeitos diretos da sobretaxa. Ele sugere que a popularidade crescente de Lula não é um fator principalmente econômico, mas estratégico em termos eleitorais.
Nilson Teixeira, ex-economista-chefe do Credit Suisse, alerta que a inflação nos EUA poderá subir com a ameaça de tarifas. O resultado esperado é uma apreciação do dólar, mas outros fatores, como o risco associado à moeda, também devem ser considerados.
Teixeira critica as declarações de Lula sobre Trump, argumentando que o ideal seria buscar negociações em vez de reações.
Dalton Gardiman, economista-chefe da Ágora Investimentos, comentou que a situação é delicada e interrompeu um ciclo de valorização do real, que poderia estar mais baixo se não fosse pela ameaça da sobretaxa.
Embora a expectativa seja de que Trump possa recuar, a incerteza que a tarifa traz significa que o Brasil deve se preparar para um período de instabilidade nas próximas semanas.
—
Imagem Redação



Postar comentário