De ‘vila esquecida’ a polo cultural: A transformação de Paraty sob o olhar de O GLOBO

Paraty: Um Tesouro Vivente em Risco de Se Tornar Ruínas

“Paraty, a cidade relíquia, corre o risco de se tornar apenas um monumento à decadência”, assim começou a narrativa do GLOBO em 1967. E a espera pela estrada que poderia trazer turismo e cuidado ao rico Patrimônio Histórico e Artístico nunca foi tão urgente. Hoje, durante a vibrante Festa Literária Internacional de Paraty, é difícil imaginar que os imponentes casarões tombados pela UNESCO estiveram à beira do colapso por negligência. A trajetória da cidade é uma história de superação de crises econômicas e políticas, que agora brilha como um cobiçado destino internacional.

Nos últimos cem anos, o GLOBO acompanhou de perto a incrível transformação de Paraty. Os arquivos do jornal revelam como a cidade deixou de ser uma vila esquecida no tempo. Um marco dessa mudança aconteceu em 1976, quando um concerto do Projeto Aquarius reuniu 15 mil pessoas, firmando Paraty como um ícone de cultura e história para os turistas.

O primeiro destaque de Paraty nas páginas do GLOBO remonta a 17 de agosto de 1926, com uma breve nota sobre a nomeação de um novo juiz. De lá pra cá, a cidade foi frequentemente mencionada como sinônimo de sua famosa aguardente. Curiosamente, a grafia do nome “Paraty” variava conforme o redator, mas só a forma adotada pela prefeitura a partir dos anos 90 se consolidou na mídia.

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) tornou-se um marco anual que simboliza a conexão entre a cidade histórica e um público mais vasto. O evento, que ocorre entre 30 de julho e 3 de agosto, é não só uma celebração da literatura, mas também um ponto de encontro cultural que atrai visitantes de todo o Brasil e além.

A pouca atenção da imprensa nacional refletia o isolamento que a cidade enfrentava no século XX. Sem estradas que conectassem Paraty ao resto do Brasil, a acessibilidade dependia quase exclusivamente de viagens por mar. Após o auge do ciclo do ouro, a cidade ficou à mercê do tempo, esquecida e desconectada.

Com a abolição da escravatura no final do século XIX, Paraty experimentou uma perda significativa na sua economia agrícola, levando a uma lenta decadência. Esse período, embora desolador, acabou preservando seu valioso patrimônio colonial, já que os moradores não podiam bancar as reformas dos solares.

Durante a década de 1940, Paraty aparecia nas manchetes principalmente em relação a questões políticas e desastres naturais. Um exemplo marcante: em 30 de março de 1936, o jornal destacou uma inundação devastadora que destruiu pontes e causou estragos à cidade.

Em 1952, a insatisfação popular levou a cidade a criar manchetes de destaque, quando o GLOBO revelou um escândalo sobre uma tentativa do prefeito de negociar a “doação” do município a São Paulo. A situação gerou um clima de tensão e protestos na cidade.

Nos anos seguintes, a relação com o desenvolvimento se tornou um tema central. Em 1954, com a inauguração da rodovia Paraty-Cunha, a cidade começou a se conectar novamente com o resto do Brasil, apesar dos riscos da estrada sinuosa.

O GLOBO, sempre atuante, registrou esses eventos fundamentais para a cidade, refletindo sobre as consequências do progresso sem planejamento. Preocupações sobre a preservação do patrimônio começaram a ganhar espaço nas páginas do jornal ao longo dos anos 60, à medida que a cidade se tornava destaque também em projetos de turismo e eventos culturais.

Em 1979, o jornal noticiou a necessidade urgente de discutir como proteger a beleza de Paraty em meio a um crescimento desordenado, dando voz à população e autoridades em fóruns abertos para debater o futuro da cidade.

Os anos 80 e 90 consolidaram Paraty como um importante destino turístico, especialmente após a Festa Literária Internacional de Paraty ser criada em 2003, trazendo renome internacional à cidade. O GLOBO se manteve à frente, publicando tabloides diários durante o festival.

Finalmente, em 2019, após décadas de luta pela preservação, Paraty foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO. A grande manchete festejou o evento, mas alertou sobre os desafios futuros de proteger essa cidade magnífica.

Paraty, com sua história rica e desafiadora, nos lembra que o futuro da beleza e da cultura depende não apenas das ações imediatas, mas de um compromisso contínuo com a preservação e o desenvolvimento sustentável.


Imagem Redação

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Abilenio Sued

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