Instalada a Frente Parlamentar Memória, Verdade e Justiça em Porto Alegre
A Sala de Memória e Justiça da cidade de Porto Alegre recebeu um evento histórico no último sábado (11), onde foi oficialmente instalada a Frente Parlamentar Municipal Memória, Verdade e Justiça. O vereador Pedro Ruas (PSOL), idealizador da proposta aprovada no início deste ano pela Câmara Municipal, destacou a importância do local escolhido para a cerimônia: um casarão na Rua Santo Antônio, conhecido como “Dopinha”. Este espaço, marcado pela clandestinidade, foi o primeiro centro de sequestros, torturas e execuções de presos políticos na região do Cone Sul.
Ruas enfatizou a gravidade da situação ao afirmar que o “Dopinha” simboliza a luta contra as violações de direitos humanos que ocorreram durante a ditadura militar, de 1964 a 1985. O vereador lembrou que centenas de pessoas ainda clamam por reconhecimento e reparações devido a experiências traumáticas, incluindo prisões, torturas e o desaparecimento de entes queridos. “Estamos aqui para dar voz a essas vítimas e lutar pela memória e justiça”, declarou.
Durante a solenidade, Ruas leu uma placa que recorda os horrores cometidos naquele local. Ele destacou que, sob a liderança do major Luiz Carlos Mena Barreto, um grupo de 28 militares e policiais civis do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) perpetraram atrocidades que marcaram a história do Brasil. “Foi aqui que uma estrutura paramilitar funcionou, resultando em sequestros, torturas e a morte de muitos inocentes”, narrou o vereador com firmeza.
O discurso do parlamentar fez alusão à CPI aberta pela Assembleia Legislativa para investigar o caso do sargento Manuel Raimundo Soares, que sofreu 152 dias de tortura e foi encontrado morto no rio Jacuí. “Esse espaço precisa se transformar em um Centro de Memória e Justiça. Nossa luta já trouxe importantes figuras políticas para esta causa, mas a batalha pela compra do imóvel ainda está em andamento”, ressaltou Ruas, comprometido com a continuidade deste trabalho.
O evento atraiu um público engajado na defesa dos direitos humanos, reunindo diversas lideranças e representantes de movimentos sociais. Entre os presentes estavam Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, e Roque Reckziegel, coordenador da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RS. A deputada estadual Sofia Cavedon (PT) e Raul Carrion, do PCdoB, também se juntaram ao movimento, mostrando apoio incondicional à causa.
Representantes de instituições e entidades foram fundamentais para o fortalecimento do evento. Sérgio Bittencourt, presidente da Associação dos ex-presos e perseguidos políticos, e Válmaro Paz, da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), estavam entre os convencidos da importância do processo de verdade e justiça. O clima de solidariedade e determinação foi palpável, demonstrando que a luta por reparação e memória é uma responsabilidade coletiva.
Além dos representantes da classe política e de direitos humanos, o evento contou com a presença de jornalistas, educadores e religiosos, todos unidos pela necessidade de relembrar e resistir. A pastora Metodista Mara Freitas, cuja família foi perseguida, e Jacqueline Custódio, representando o Instituto Sigmund Freud, compartilharam relatos sobre a importância da memória coletiva na busca por um futuro sem repetição dos erros passados.
A Frente Parlamentar Memória, Verdade e Justiça representa, portanto, um passo significativo rumo à verdade, à reparação e à recuperação da dignidade das vítimas do regime militar. O engajamento desta rede de apoio destaca que a luta por justiça não é apenas uma questão do presente, mas um dever moral para com as próximas gerações. O momento é crucial, e a mobilização social é um elemento indispensável nesse processo.
A instalação da Frente é um testemunho da determinação da sociedade em não deixar que a história da brutalidade e da repressão seja esquecida. O trabalho em prol da verdade e da memória deve continuar, convocando todos a um compromisso coletivo em favor da justiça e do respeito aos direitos humanos.
Imagem Redação



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